Cacheu e a Sua História
Enquadramento Histórico e Geográfico
Cacheu é uma das mais antigas cidades da atual República da Guiné-Bissau. Localiza-se na região norte do país, na margem do rio Cacheu, a cerca de 95 km de Bissau. O rio, navegável em grande parte do seu curso inferior, constituiu durante séculos uma via estratégica de ligação entre o interior da África Ocidental e o oceano Atlântico.
O território integra a antiga província histórica da Alta Guiné e situa-se numa zona de mangais, bolanhas e florestas densas, características da costa ocidental africana. Antes da consolidação da presença portuguesa, a região estava integrada nas dinâmicas políticas do Império do Mali (séculos XIII–XVI) e, posteriormente, do Reino do Kaabu (ou Gabu), que controlava vastas áreas do interior da atual Guiné-Bissau, Senegal e Gâmbia.
Muito antes da chegada europeia, Cacheu já era parte de redes africanas de intercâmbio, circulação e produção.
Séculos XV–XVI: Encontro Atlântico
Os navegadores portugueses chegaram à costa da Alta Guiné na década de 1440, no contexto da expansão marítima. Durante o século XVI, comerciantes portugueses estabeleceram feitorias e pontos de troca ao longo da costa.
O comércio incluía ouro proveniente do interior, marfim, cera, panos locais, pimenta malagueta e, progressivamente, pessoas escravizadas. A partir da segunda metade do século XVI, com o crescimento das plantações nas Américas, o tráfico de africanos escravizados tornou-se um eixo central da economia atlântica.
Importa sublinhar que este sistema envolveu múltiplos atores: comerciantes europeus, elites africanas, intermediários locais e redes afro-atlânticas. A dinâmica foi complexa e teve impactos profundos na organização política e social da região.
Século XVII: Fundação e Consolidação
Em 1588, Cacheu foi oficialmente elevada a vila pela Coroa portuguesa. Em 1675 foi criada a Companhia de Cacheu e Rios da Guiné, destinada a organizar e monopolizar o comércio na região, incluindo o tráfico de pessoas escravizadas.
Durante os séculos XVII e XVIII, Cacheu tornou-se um dos principais portos exportadores de africanos escravizados para o Brasil, Caraíbas e outras colónias americanas. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham sido deportadas a partir da Alta Guiné nesse período.
Em 1690 iniciou-se a construção do Forte de Cacheu (Forte de São José de Cacheu), estrutura militar destinada a proteger os interesses comerciais portugueses.
Século XIX: Declínio do Tráfico
O século XIX marcou o declínio progressivo do tráfico atlântico. Portugal aboliu oficialmente o tráfico de escravizados em 1836, embora o comércio clandestino tenha persistido durante décadas.
Com a redução do tráfico, Cacheu perdeu importância económica relativa, e Bissau foi progressivamente afirmando-se como principal centro administrativo colonial. Após a Conferência de Berlim (1884–1885), o colonialismo português intensificou o controlo territorial.
Século XX: Luta e Independência
Durante o século XX, a Guiné manteve-se sob domínio português. Em 1956 foi fundado o PAIGC, sob liderança de Amílcar Cabral. A luta armada iniciou-se em 1963 e teve forte implantação nas zonas rurais do norte e leste do país.
A independência unilateral da República da Guiné-Bissau foi proclamada em 24 de setembro de 1973 em Madina do Boé. Portugal reconheceu oficialmente a independência a 10 de setembro de 1974, após a Revolução de 25 de Abril.
Forte de São José de Cacheu
Erguido no final do século XVI, o Forte de São José de Cacheu foi construído para consolidar a presença portuguesa na costa da África Ocidental e assegurar o controlo das rotas comerciais no rio Cacheu. A sua implantação estratégica, junto à margem do rio, permitia vigiar o tráfego fluvial e proteger os interesses da Coroa e dos comerciantes instalados na região.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII, Cacheu tornou-se um dos principais entrepostos do comércio atlântico, incluindo o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. O forte funcionava como estrutura de defesa, armazém militar e ponto de autoridade administrativa, integrando o sistema mais amplo de feitorias e praças fortificadas portuguesas na costa africana.
A sua arquitetura, de planta simples e funcional, revela adaptações sucessivas às necessidades defensivas e às condições climáticas locais. Mais do que uma fortificação, o edifício simboliza a inserção de Cacheu nas dinâmicas imperiais europeias e nas redes económicas que ligavam África, Europa e Américas.
Hoje, o Forte de São José integra o circuito patrimonial da cidade e constitui um lugar de memória. A sua preservação permite enquadrar historicamente o papel de Cacheu nas rotas atlânticas e compreender os sistemas políticos, comerciais e humanos que marcaram profundamente a região e a sua diáspora.
Porto do Não Regresso
O Porto do Não Regresso, também conhecido como "Porto do Nunca Mais", localizado na cidade de Cacheu, é um dos mais importantes lugares de memória histórica da Guiné-Bissau associados ao tráfico transatlântico de africanos escravizados.
Este local simboliza o ponto de partida de onde milhares de homens, mulheres e crianças foram embarcados à força rumo às Américas, durante os séculos em que o comércio atlântico de escravos marcou profundamente a história da região.
Cacheu foi, entre os séculos XVI e XVIII, um dos principais entrepostos do comércio atlântico na costa da África Ocidental, sob influência portuguesa e com forte participação de comerciantes luso-africanos. A partir deste porto e de outros pontos ao longo do rio Cacheu, pessoas capturadas no interior da região eram concentradas e posteriormente embarcadas para diferentes destinos nas Américas.
O chamado Porto do Não Regresso tornou-se, na memória coletiva, um símbolo do momento da separação definitiva entre os africanos escravizados e as suas terras de origem. Para muitos, este era o último contacto com a sua terra, as suas famílias e as suas comunidades.
Hoje, o Porto do Não Regresso é reconhecido como um lugar de memória e reflexão, integrando o património histórico de Cacheu e da Guiné-Bissau. O local convida visitantes e investigadores a recordar este passado doloroso, a honrar a memória das vítimas do tráfico atlântico e a refletir sobre os seus impactos duradouros nas sociedades contemporâneas.
Cemitério dos Ingleses
O Cemitério dos Ingleses, localizado na cidade de Cacheu, constitui um importante vestígio histórico da presença europeia na costa da Guiné durante o período do comércio atlântico.
Este espaço está associado à presença de comerciantes e agentes britânicos que frequentavam regularmente o porto de Cacheu, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX. Na segunda metade do século XVIII, navios ingleses passaram a visitar com maior frequência o porto para atividades comerciais ligadas às redes de comércio atlântico que operavam na região.
O cemitério era utilizado como local de sepultura de cidadãos britânicos que faleciam em Cacheu, incluindo comerciantes, marinheiros e, em alguns casos, membros das suas famílias. Naquela época, as viagens marítimas eram realizadas em navios à vela e podiam durar várias semanas ou meses, o que tornava impossível transportar os corpos até Inglaterra em condições adequadas.
Ainda hoje é possível observar várias sepulturas antigas, algumas delas com inscrições que indicam nomes, nacionalidades e datas de falecimento, testemunhando a presença britânica em Cacheu e o carácter cosmopolita da cidade, onde interesses portugueses, britânicos e de outras potências europeias se cruzavam no quadro das trocas comerciais atlânticas.
Atualmente, o Cemitério dos Ingleses é reconhecido como um elemento do património histórico da cidade de Cacheu, preservando memórias de diferentes momentos da sua história.
Capela de Nossa Senhora da Natividade
A Capela de Nossa Senhora da Natividade é uma das mais antigas edificações religiosas de Cacheu e um dos testemunhos históricos mais significativos da presença cristã na região. A sua história remonta ao período inicial da presença portuguesa na costa da atual Guiné-Bissau, entre os séculos XVI e XVII.
Em meados do século XIX, durante o governo de Honório Barreto, natural de Cacheu e então Governador da Guiné, esta capela passou a ser conhecida como Igreja de Nossa Senhora da Natividade. A mudança de designação relaciona-se com o facto de Nossa Senhora da Natividade já ser considerada, há muito, a padroeira da praça de Cacheu. A festa da padroeira celebra-se no dia 8 de setembro, data que continua a ser também o dia simbólico da cidade de Cacheu.
Do ponto de vista arquitetónico, a capela apresenta uma estrutura simples e funcional, característica das primeiras construções religiosas da região. A sobriedade da sua traça reflete a adaptação aos materiais disponíveis e às condições ambientais locais.
Em 1988, foi reaberta a missão católica de Cacheu com a chegada das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida, provenientes de Porto Alegre, no Brasil.
Hoje, a Capela de Nossa Senhora da Natividade permanece como um importante marco da história religiosa e cultural de Cacheu, testemunho das dinâmicas históricas que marcaram a região ao longo de vários séculos.
Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu
O Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu (PNTC) localiza-se no nordeste da Guiné-Bissau e constitui uma das áreas naturais mais importantes do país. Criado a 4 de dezembro de 2000, o parque abrange uma área de 88.615 hectares (9% do território nacional), marcada pela presença dominante dos mangais, conhecidos também como tarrafes.
A paisagem do parque é estruturada pelo rio Cacheu, que atravessa a área protegida e a divide em duas zonas com características ecológicas e sociais distintas. Este território integra um vasto sistema de mangais que constitui o maior bloco contínuo deste ecossistema em toda a África Ocidental.
Os extensos mangais e zonas húmidas acolhem numerosas aves migradoras. Entre os mamíferos presentes destacam-se os golfinhos (Tursiops truncatus e Sousa teuszi), os hipopótamos (Hippopotamus amphibius), os manatins africanos (Trichechus senegalensis) e diferentes espécies de crocodilos.
Para além do seu valor ecológico, o Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu é também um território habitado, com uma população total de 28.050 habitantes, distribuídos por 44 tabancas, envolvendo seis etnias. As comunidades mantêm uma relação histórica e quotidiana com o mangal e com o rio.
A gestão do parque está sob responsabilidade do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas, Dr. Alfredo Simão da Silva (IBAP).
Fonte: IBAP — Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas
Mural dos Filhos de Cacheu
O mural de Cacheu foi criado em agosto de 2024 pela Associação "Unidos pa um Cacheu Mindjor" (UCM), com o objetivo de homenagear filhos da cidade, reconhecendo o seu papel ao longo da história, tanto no domínio político como cultural.
Entre as personalidades destacadas encontram-se Honório Barreto, Dulce Neves, Manecas Costa, Madjulis e Djidji de Malaika, figuras com trajetórias distintas, associadas a diferentes momentos e expressões da história e da cultura de Cacheu.
O mural integra igualmente uma representação simbólica do período da escravatura, transmitindo uma mensagem profunda de memória e reflexão.
Destaca-se a inscrição: "Oremos pelas almas dos escravos que jazem na margem do rio Cacheu, e que se libertaram das grilhetas dos esclavagistas", evocando respeito, homenagem e consciência histórica sobre esse passado doloroso.
Este espaço artístico convida-nos a conhecer as gentes de Cacheu e a navegar pela identidade desta cidade.
Palácio do Governo Regional de Cacheu
O Palácio do Governo Regional de Cacheu constitui um importante marco histórico e administrativo da região. A sua construção remonta ao final do século XVII e início do século XVIII, durante o período da presença colonial portuguesa na então Guiné-Bissau.
Inicialmente, o edifício foi concebido com uma dupla funcionalidade: a parte superior destinava-se a serviços de saúde, funcionando como centro de atendimento médico, enquanto a parte inferior acolhia uma esquadra, garantindo a segurança e a ordem pública na cidade.
Após a Luta de Libertação Nacional da Guiné-Bissau e com a proclamação da independência em 1973, o edifício passou por um processo de reconfiguração funcional. Desde então, foi transformado em sede da administração regional, assumindo um papel central na gestão política e administrativa da região de Cacheu.
Atualmente, o palácio mantém a sua relevância institucional, servindo não apenas como sede do Governo Regional de Cacheu, mas também como residência oficial do governador da região. O edifício representa um valioso património histórico e arquitetónico, testemunho da evolução política, social e institucional do país ao longo dos séculos.
Rádio Voz do Rio Cacheu
A Rádio Comunitária Voz do Rio Cacheu foi criada em 2013, com o objetivo de sensibilizar e formar as comunidades piscatórias da região, em particular aquelas que vivem no entorno do Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu.
Mais do que um meio de comunicação, a rádio constitui hoje um espaço de expressão comunitária, de partilha de saberes e de promoção de práticas que contribuem para a sustentabilidade ambiental e social da região de Cacheu.