A ecomusealização constitui uma abordagem metodológica centrada na relação entre as comunidades locais, o território e o seu património, rompendo com os modelos tradicionais de museu que separam os objectos das suas comunidades de origem. No contexto do Memorial de Cacheu, esta abordagem assumiu uma dimensão política e ética incontornável, dado que o próprio objecto de patrimonialização — a memória da escravatura — é uma memória dolorosa e, em muitos casos, suprimida.
O presente artigo analisa três campanhas de recolha e musealização realizadas entre 2018 e 2023, nas quais membros das comunidades de Cacheu participaram activamente na identificação, recolha e interpretação de objectos e narrativas relacionadas com a história da escravatura na região.
Os resultados demonstram que a participação comunitária não apenas enriquece o acervo do Memorial, mas transforma profundamente a relação das comunidades com a sua própria história, contribuindo para processos de elaboração colectiva do trauma histórico.